Nestas décadas toda a humanidade navegou pelo oceano das mudanças, atravessando vários canais de transformações e com ela nasceu um mundo regido mais pelo consumo material do que pelo consumo espiritual, mais pela competitividade do que pela solidariedade.
Pessoas indiferentes e que bem pouco se orientam por referenciais humanos. Perambulam diariamente sôfregas por toneladas de informação e, entretanto, ignoram a razão pela qual se portam perante a vida e perante seus semelhantes.
Não são religiosas nem ateias. Constrói, quando muito, uma forma peculiar de espiritualidade, segundo sua própria perspectiva.
Fazem questão de decidir arbitrariamente o que é o bem e o que é o mal.
O sonho delas de eternidade começa por uma satisfação materialista tais como dinheiro, poder e fama e terminam fabricando uma ética à sua medida.
Constroem uma sociedade de consumo que se caracteriza pelo ciclo de vida dos produtos cada vez mais curto, com a funcionalidade e a utilidade sendo substituídos por modelos carregados de valores simbólicos.
Uma sociedade em que é persuadido a adquirir o que está na moda apenas como forma de se integrar socialmente.
Uma sociedade em que homens e mulheres são levados a comprar sem necessidade, fazendo do consumo uma opção de lazer e uma forma de libertação.
Esta sociedade do “descartável”, do “usar e jogar fora” inverteu a lógica da atividade econômica em que a produção tinha como finalidade atender as necessidades das pessoas, passando-as a estar a serviço da produção, transformando os shoppings centers em verdadeiros templos do consumo.
Segundo o Instituto Akatu, hoje o mundo já consome 20% a mais do que a Terra consegue renovar. Se toda a humanidade consumisse como nos países ricos, seriam necessários quatro planetas para suprir todo esse consumo.
Somente no Brasil são fabricados e comercializados anualmente mais de três milhões e meio de automóveis de acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores – ANFAVEA. São produzidos e vendidos mais de cinquenta e oito milhões de pneus, dados da ANIP e comercializados mais de quarenta e sete milhões de metros cúbicos de combustíveis conforme dados do SINDICOM.
De acordo coma Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos é comercializada anualmente no Brasil mais de cinquenta e cinco milhões de fogões, cinquenta e três milhões de televisores, cinquenta e um milhões de refrigeradores, cinquenta milhões de rádios, vinte e dois milhões de máquinas de lavar. São fabricados mais de oitocentos milhões de calçados de acordo com a ABICALÇADOS e cerca de vinte e cinco milhões produtos de higiene, perfume e cosméticos são comercializados anualmente no Brasil conforme informações da ABIHPEC, somente para apontar alguns números.
Consumir deixou de ser um simples ato de subsistência e se tornou uma forma de lazer e de libertação.
Se antes o ato de comprar era feito simplesmente para atender a necessidade, hoje se compra sem necessidade pelo simples prazer de comprar.
Construímos uma sociedade onde não é preciso apenas comprar para existir, mas é preciso consumir para ser feliz.
O materialismo exagerado faz com que o homem busque sua realização pessoal e a felicidade através do consumo.
É certo que o problema não é adquirir e ter bens materiais, é se tornar escravo deles e esta sociedade do consumo vende a satisfação dos desejos individuais, mas desperta nas pessoas novos e novos desejos a serem satisfeitos, fazendo-as querer comprar mais e mais, e isto cria um vazio existencial que não se preenche com bolsas, celulares, carros e joias.
Vivemos em uma sociedade onde poucos têm muito e muitos têm pouco, porém, todos têm o desejo de consumir.
A violência física e moral são frutos desta desigualdade.
Se a felicidade prometida pela sociedade de consumo fosse real, nós não estaríamos vivendo numa sociedade tão injusta e tão carente de espiritualidade.
Como dizia o saudoso Millor Fernandes, “quando começou a comprar almas, o diabo inventou a sociedade do consumo”, além do bom humor esta frase serve para uma reflexão sobre o exagero e o materialismo exagerado em que vivemos.
Por Rubens Fava
Aqueles que pensam que os regimes comunistas da Europa Central são obra exclusiva de criminosos deixam na sombra uma verdade fundamental: os regimes criminosos não foram feitos por criminosos mas por entusiastas con vencidos de terem descoberto o único caminho para o paraíso. Defendiam corajosamente esse caminho, executando, por isso, centenas de pessoas. Mais tarde ficou claro como o dia que o paraíso não existia, e que, portanto, os entusiastas eram assassinos.
Assim todos acusavam os comunistas: vocês são os responsáveis pelas desgraças do país (que está pobre e arruinado),pela perda de sua independência (caiu sob a tutela dos russos), pelos assassinatos judiciários!
Os acusados respondiam: não sabíamos! Fomos enganados! Acreditávamos! Somos inocentes do fundo do coração!
O debate conduzia a essa pergunta: seria verdade que não sabiam? Ou apenas fingiam não saber?
Tomas acompanhava esse debate (como dez milhões de tchecos), e acreditava que haveria certamente entre os comunistas alguns que não eram assim tão ignorantes (deviam pelo menos ter ouvido falar dos horrores que tinham acontecido, e que não paravam de acontecer na Rússia pós- revolucionária). Mas é provável que a maior parte deles não soubesse de nada.
E ele dizia para si mesmo que o problema fundamental não era: sabiam ou não sabiam? Mas: seriam inocentes apenas porque não sabiam? Um imbecil sentado no trono estaria isento de toda responsabilidade somente pelo fato de ser um imbecil?
Vamos admitir que o procurador tcheco que pedia no começo dos anos 50 a pena de morte para um inocente tivesse sido enganado pela polícia secreta russa e pelo governo de seu país.Mas agora que sabemos que as acusações eram absurdas, e que os condenados eram inocentes, como podemos admitir que o mesmo procurador defenda sua pureza de alma batendo no peito: minha consciência está limpa, eu não sabia, eu acreditei! Não é precisamente no seu: Eu não sabia! Eu acreditei! Que reside sua falta irreparável?
Nesse ponto Tomas se lembrou da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com sua própria mãe, e, no entanto, quando compreendeu o que tinha acontecido, nem por isso se sentiu inocente. Não pôde suportar a visão da infelicidade provocada por sua ignorância, furou os olhos e, cego para sempre, partiu de Tebas.
Tomas ouvia o grito dos comunistas que defendiam sua pureza de alma, e dizia a si próprio: por causa de sua inconsciência o pais talvez tenha perdido séculos de liberdade. Mesmo assim vocês gritam que se sentem inocentes? Como podem ainda olhar em torno de si mesmos? Como?! Não estão espantados? Vocês não enxergam? Se tivessem olhos deveriam furá-los e deixar Tebas!
(Quinta Parte, A Leveza Insustentável do Ser, Milan Kundera)
Essa extasiante ciência da Vida.
Há uma menina
Há uma moleca
Morando sempre no meu coração
Toda vez que a adulta balança
Ela vem pra me dar a mão
Há um passado no meu presente
Um sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
A menina me dá a mão
E me fala de coisas bonitas
Que eu acredito
Que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito
Caráter, bondade alegria e amor
Pois não posso
Não devo
Não quero
Viver como toda essa gente
Insiste em viver
E não posso aceitar sossegada
Qualquer sacanagem ser coisa normal
Bola de meia, bola de gude
O solidário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me alcança
A menina me dá a mão
Há uma menina
Há uma moleca
Morando sempre no meu coração
Toda vez que a adulta fraqueja
Ela vem pra me dar a mão
E selvagem.
Ela vai mudar, Só pra conversar É sempre amor, mesmo que acabe Ele vai mudar, Para conversar É sempre amor, mesmo que acabe Para conversar É sempre amor, mesmo que acabe
Vai gostar de coisas que ele nunca imaginou
Vai ficar feliz de ver que ele também mudou
Pelo jeito não descarta uma nova paixão
Mas espera que ele ligue a qualquer hora
E perguntar se é tarde pra ligar
Dizer que pensou nela
Estava com saudade
Mesmo sem ter esquecido que
Com ela aonde quer que esteja
É sempre amor, mesmo que mude
É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou
Escolher um jeito novo de dizer “alô”
Vai ter medo de que um dia ela vá mudar
Que aprenda a esquecer sua velha paixão
Mas evita ir até o telefone
Pois é muito tarde pra ligar
Tem pensado nela
Estava com saudade
Mesmo sem ter esquecido que
Com ele aonde quer que esteja
É sempre amor, mesmo que mude
É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou
Nunca é muito tarde pra ligar
Ele pensa nela
Ela tem saudade
Mesmo sem ter esquecido que
Com ele aonde quer que esteja
É sempre amor, mesmo que mude
É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou
O Mundo é um Moinho.
I am the one and the only one.
“Não cultive as mágoas - porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que um único pontinho preto num oceano branco deixa tudo cinza.”
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
Aguardar ansiosamente o momento em que esse sentimento vai chegar. E sentir, que aos pouquinhos, e não avassalador, ele parece que vem. Ouve os passos perto da porta?
Sim, te amo.
Nessa coisa louca é que sei que te amo. Cheia de dúvidas, nessa indecisão terrena, esse não saber (mas querer) ver sentido no desencontro. Quando você se apaixona, não me parece o bastante e quando tudo está seguro, você fica assustado…
… ao menos, estamos vivos.
Olha… está batendo na porta. Quem vai ter a coragem de abrir?
(from Jamie Beck)