“Há algo de, como direi, exultante, em colocar-se do lado da vida, em vez de ficar do lado das ideias protetoras. Quando todas essas ideias protetoras sobre a vida às quais você vem se apegando sucumbem, você compreende que coisa horrível é isso, e você é isso. Esse é o arrebatamento da tragédia grega. O que Aristóteles chamava de catarse. Catarse é um termo ritual e representa a eliminação da perspectiva do ego: destruir o sistema do ego, destruir a estrutura racional. Esmagá-lo e deixar que a vida – boom! – surja. O ímpeto dionísico esmaga tudo. E assim você se sente purgado do seu sistema egocêntrico de julgamento, pelo qual está vivendo o tempo todo.”
Ser ou não ser - eis a questão. Será mais nobre sofrer na alma Pedras e Flechas do destino feroz Ou pegar em armas contra o mar de angústias - E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir; Só isso. E com sono - dizem 0 extinguir Dores do coração e as mil mazelas naturais A que a carne é sujeita; eis uma consumação Ardente desejável. Morrer - dormir - Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo! Os sonhos que hão de vir no sono da morte Quando tivermos escapado ao tumulto vital Nos obriga a hesitar: e é essa reflexão Qua dá à desventura uma vida tão longa. pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo. A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, A prepotencia do mando, e o achincalhe Que o mérito paciente recebe dos inúteis, Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos, Gemendo e suando numa vida servil, Senão porque o terror de alguma coisa após a morte O país não descoberto, de cujos confins Jamais voltou nenhum viajante - nos confunde a vontade, nos faz preferir e suportar os males que já temos, A fugirmos para outros que desconhecemos? E assim a reflexão faz todos nós covardes. E assim o matiz natural da decisão Se transforma no doentio pálido do pensamento. E empreitadas de vigor e coragem, Refletidas demais saem de seu caminho, Perdem o nome de ação. W. Shakespeare